Atuando profissionalmente na indústria criativa com produção de conteúdo próprio

A indústria criativa pode ser vista hoje ganhando cada vez mais evidência e relevância na economia. Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil, estima-se que em 10 anos houve um crescimento de 90% dos empregos formais para profissionais criativos, principalmente nas áreas de tecnologia, consumo, mídias e cultura, gerando um PIB anual equivalente a R$126 bilhões. Os serviços desempenhados se enquadram nas aspirações da geração dos Millennials, relacionadas com uma visão de mundo em que o trabalho pode ser uma “atividade pela qual a pessoa utiliza seu corpo e mente na realização de uma obra e dela extrai significado”.

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Imagem: Ilustração da capa do Mapeamento da Indústria Criativa no Brasil.

Uma das possibilidades de atuação dentro da indústria criativa diz respeito à produção de conteúdo, tanto para setores de entretenimento, quanto para setores de jornalismo e educativos. Atuando nestes setores podem ser incluídos profissionais de comunicação social, jornalismo, design, música, letras, artes visuais, artes cênicas, entre outros.

Além de meios tradicionais de veiculação de conteúdo, como a televisão, o rádio, os livros, o cinema e o teatro, há também as novas formas de publicação que surgiram nas últimas décadas, como os sites de vídeos, os blogs, os livros digitais, os podcasts e as mídias sociais. Assim, em conjunto com o barateamento dos equipamentos de produção, hoje é possível uma forma mais democrática de publicação, em que praticamente qualquer um pode divulgar seu próprio conteúdo.

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Uma forma antiga utilizada até hoje para artistas produzirem e divulgarem seu conteúdo é através de zines. Imagem: http://portofashionmakers.tumblr.com/post/134290058674/galeria-dama-aflita

CGP Grey é dono de um canal educativo no YouTube com 1,94 milhão de inscritos, e é integrante de dois podcasts. Ele costumava ser professor de Física, mas largou o emprego na escola onde trabalhava quando a receita dos anúncios em seus vídeos transformaram a produção de seu próprio conteúdo em um trabalho sustentável.

Ele diz se sentir muito sortudo de viver em uma época em que temos as ferramentas disponíveis, e para várias áreas não existem mais barreiras de entrada, tornando você livre para experimentar. Talvez dê certo, talvez não, mas esta é uma outra estratégia aconselhada por ele: no início, experimentar foi fundamental, trabalhando em vários pequenos projetos diferentes, até descobrir aquele que daria certo.

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CGP Grey utiliza um avatar para representar a si mesmo em seus vídeos. Imagem: https://youtu.be/7Pq-S557XQU

Esta é uma lógica parecida com a utilizada por Mr. Manson na startup brasileira 301.yt. Com a promessa de criar vídeos bem-sucedidos para a internet, o foco do trabalho é o desenvolvimento de uma variedade de diferentes formatos para vídeos com produção simples, diferente de uma lógica de produção com enorme investimento na criação de um único vídeo. O objetivo é reduzir o risco de fracasso da produção, já que o investimento vai ser distribuído em vários produtos finais com potencial de sucesso.

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Imagem: Frame do vídeo “Pensamento Pós-Viral”, promocional da 301.yt

Não é apenas para quem quer fazer seu próprio negócio que diversidade de alternativas pode ser uma vantagem, mas para quem busca uma contratação em uma empresa também. Gilliard Lopes manteve durante 7 anos uma empresa na qual tinha um amigo como sócio, mas, em 2008, em busca de crescimento pessoal, procurava um emprego na área de produção de jogos dentro de uma empresa com uma equipe maior.

“Eu atirei pra tudo quanto é lado, e em quatro dimensões, espaço e tempo. Eu tinha uma planilha com umas 115 vagas, em tudo quanto é país do mundo, e não é exagero.” (Gilliard Lopes, em entrevista a Caio Corraini)

Ele disse ter enviado mais de 100 e-mails para diferentes empresas do mundo todo, para receber resposta de apenas cerca de um décimo destas, e só então encontrar a melhor oportunidade. Hoje ele trabalha na EA Sports, no Canadá, e é produtor e game designer da série FIFA, jogo digital de futebol que tem lançamento anual e é um dos mais vendidos do mundo.

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Gilliard Lopes, produtor do jogo FIFA. Imagem: http://jogabilida.de/2015/10/construindo-mundos-02/

Depois de identificadas as oportunidades de atuação, é importante ter conhecimento de como desempenhar sua atividade profissional de uma forma economicamente viável e em conformidade com suas responsabilidades legais. Isso deverá proporcionar a continuidade de seu trabalho e garantir seus direitos.

Em relação a situação financeira, será necessário decidir se você quer trabalhar, por exemplo, como funcionário dentro de uma empresa, como autônomo prestando serviço para terceiros, ou como empreendedor abrindo sua própria empresa. Existem vários fatores que devem influenciar esta escolha, por isso, pode ser interessante buscar o auxílio de especialistas, por meio de uma consultoria a um escritório de contabilidade. Além disso, conversar com profissionais que já atuam na área de seu interesse pode ser extremamente esclarecedor.


Para tornar seu trabalho economicamente viável, no caso de iniciativa própria, será necessário identificar a origem de suas receitas. Para produção de conteúdo, as formas tradicionais de monetização são anúncios e assinaturas. Ou seja, neste caso a fonte do dinheiro seria as empresas anunciantes e o público assinante.

O modelo de anúncios na internet está sendo questionado, e é possível que entre em declínio.

Na internet, o modelo que tem principalmente se mantido é o de anúncios personalizados por usuário, gerados automaticamente por sistemas como os Anúncios Google. Também existe o patrocínio específicos por conteúdo, onde a empresa anunciante entra em contato diretamente com o criador. Mas este modelo está sendo questionado, e é possível que entre em declínio. Os bloqueadores de anúncios, ou “adblockers”, estão criando discussões sobre o futuro da monetização de conteúdo na internet.

O Google lançou nos últimos meses dois serviços que vão na contramão do modelo de anúncios, em favor do modelo de assinaturas: o YouTube Red, serviço de assinaturas do YouTube que remove anúncios e promete aumentar a renda dos criadores, e o Google Contributor, que remove parte dos anúncios de sites e também reverte parte de sua renda para os criadores. Plataformas como o Kickstarter, o Catarse e o Patreon estão atuando há algum tempo nesse sentido, onde o público pode diretamente contribuir com o criador do conteúdo.

Ainda outra forma de financiamento a ser considerada são os incentivos oferecidos através de editais do governo, tanto federais, estaduais ou municipais. Podem ser pesquisadas as áreas abrangidas por leis de incentivo a cultura, por exemplo. Neste caso, é importante observar rigorosamente as obrigações que devem ser atendidas, e quais contrapartidas deverão ser oferecidas para a sociedade.

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Ricardo Tokumoto é cartunista e ilustrador, já financiou a produção de um livro através da plataforma Catarse, e hoje recebe uma contribuição mensal de seus fãs para produção de tiras através da plataforma Patreon. Imagem: https://instagram.com/p/-xBnuziQSY/

A partir destas referências e observando os requisitos necessários, o profissional criativo que busca investir na criação de conteúdo próprio será capaz de refletir sobre as possibilidades de seu futuro profissional. Podem haver fracassos no caminho, e isso é completamente normal, mas assumindo apenas riscos controlados, estas dificuldades poderão ser convertidas em aprendizado. Portanto, analise as oportunidades e descubra o que é melhor para você, para sua carreira e seu futuro.


Bruno Ruchiga
Acadêmico do Curso de Desenho Industrial
Universidade Federal de Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil
Contato: brunoruchiga@gmail.com

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